A coleção de Rodrigo Rosner desfilada na SPFW foi inspirada nas damas da Hungria de 1948 – para ajudar os revolucionários a se libertar do Império Austro-Húngaro, elas acrescentaram às suas roupas elementos dos trajes dos camponeses. O resultado são peças carregadas de misturas, ricas em rendas, transparências, bordados e cristais. Uma coleção que pede proximidade, tornando irresistível uma visita ao backstage.

Entrar no backstage é uma atitude comum entre os jornalistas de moda, que ali vão investigar o que entrará na passarela logo mais. A ideia é conhecer de perto os tecidos, os acessórios que serão usados no desfile, entender a inspiração do estilista e, se possível, ver de perto a maquiagem e o cabelo das modelos, pra sair de lá com mais informações sobre o que vai ser exibido.

Sair de lá? Quem disse que eu queria sair de lá? Quando fui ao backstage da R.Rosner horas antes de seu desfile na São Paulo Fashion Week, eu me recusei a fazer isso. Interessada em ver o que acontece de verdade nos bastidores de um desfile, bati os pés e fiquei por lá. E o Rodrigo me recebeu de braços abertos para essa missão.

Normalmente, depois de visitar o backstage, o jornalista entra na sala de desfile com os outros convidados, senta-se em seu lugar e aguarda o show. E por mais que tenha visto muitos detalhes lá dentro, não faz ideia do que vai assistir de fato na passarela. Porque a performance das modelos, o ritmo, a trilha sonora e a iluminação vão ajudar a contar tudo sobre aquela coleção. É como se o backstage guardasse a história e o desfile fosse o livro editado – ou o filme, a peça de teatro. É na passarela que o estilista pode romancear, levando os espectadores a entrar com ele no clima de sua viagem criativa.

É. Permanecer no backstage tem suas desvantagens.
Mas preferi matar a curiosidade sobre o lado avesso do show.

Enquanto eu observava as roupas e as registrava com a câmera do meu iphone, vi a sala ser invadida aos poucos por mulheres tão altas quanto discretas. E tão discretas quanto bonitas.

Essa é a principal revelação de uma visita ao backstage: as manequins são muito altas se comparadas às mulheres comuns, e isso não fica tão claro na passarela, porque geralmente estamos a alguns metros de distância delas. E o quanto são altas, são doces. Têm carinhas de bonecas. Fazem pose para que você as fotografe. Elas sabem que sua função é ser uma vitrine da roupa, encarnar um personagem, colocar sua beleza para trabalhar pela marca. E é ali, no meio de todo mundo, que elas trocam de roupa, doando alguns minutos de sua nudez para aquele momento. Profissionais, todos os que estão ali dentro agem com naturalidade. É ambiente de respeito e o que vai ser feito ali é sério e valioso.

Importante registrar um certo desapontamento. Eu imaginava um camarim confuso, gente gritando, uma certa tensão no ar. Posso ter ficado mal acostumada com o que vi, mas isso não aconteceu no backstage do desfile da R.Rosner.

Maquiadas e penteadas à la anos 40, as modelos foram tão disciplinadas, que quase não percebemos sua presença. Enquanto elas eram vestidas pelas próprias costureiras do ateliê de Rodrigo Rosner, comentei com ele o quanto era bom saber de estilistas que valorizam o trabalho de sua equipe a ponto de levá-la para seu momento mais importante. “É o mínimo que posso fazer”, disse Rodrigo. “Se eu pudesse, elas estariam sentadas na Fila A”.

Quando ouvi a trilha do vídeo dos patrocinadores na sala de desfiles, indicando que era a hora de começar, não nego que senti vontade de fugir para alguma cadeira da plateia, porque é sempre muito gostosa a expectativa pela surpresa que a marca nos preparou.

Tudo começou sem que eu percebesse. Todos em um certo silêncio, interrompido apenas por uma piadinha entre uma modelo e outra. Cada uma esperando o seu momento de entrar em cena.

Eu esperava encontrar uma bagunça e ter até algum barraco pra contar, mas tudo correu na mais perfeita harmonia. Um dos meus maiores medos de estar ali para aquele tipo de cobertura era fazer da minha presença um incômodo. Havia outros dois fotógrafos ao meu lado, assim como maquiadores, cabeleireiros e toda a equipe. Cada um encontrou seu lugar para assistir ao deslocamento de cada uma delas, silenciosa e calmamente. E a convivência pacífica ali dentro foi um show à parte.

Cada modelo entrava por um lado da “boca de cena”, voltava pelo outro e entrava na fila de novo, para a entrada final, em conjunto, quando o estilista também entrou para receber os aplausos. Enquanto isso, a equipe lá dentro assistia ao desfile por um telão, o mesmo que o exibiria mais tarde para quem estivesse em casa em frente ao computador. Quando finalmente todo mundo deixou a passarela, ouviram-se palmas e a respiração aliviada de cada um – mostrando que havia baixado a adrenalina geral da nação.

Pronto. Naqueles últimos quinze minutos, seis meses de trabalho tiveram o seu reconhecimento. E mais uma vez o estilista, que faz tudo isso acontecer, não teve o prazer de ver o seu próprio desfile.

(fotos Cris Guerra e Ceília Lima)